
A afirmação de Nestor Hein de que o Grêmio se tornou uma “máquina de moer treinadores e jogadores” encontra respaldo, ao menos em relação à instabilidade do comando, na quantidade de mudanças realizadas pelo clube nos últimos anos.
Desde a saída de Renato Portaluppi, em abril de 2021, o Tricolor promoveu oito trocas de treinador, sem considerar períodos comandados por interinos. Foram nove ciclos de trabalho, já que Renato retornou em 2022, e propostas de futebol bastante diferentes entre si.
“Desde o tempo em que eu estive no Grêmio, há cinco anos, o Grêmio é uma máquina de moer treinadores e moer jogadores. Ninguém serve para o Grêmio. Não serve o Renato, não serve o Roger, não serve Tiago Nunes, não serve o Felipão, não serve o Castro.”
A sequência mostra que o Grêmio não deixou de procurar alternativas. Pelo contrário: o clube passou por treinadores de jogo apoiado, propostas de pressão alta, modelos mais defensivos e trabalhos baseados em mobilização emocional. O problema foi sustentar qualquer uma dessas ideias por tempo suficiente para transformá-la em identidade.
Tiago Nunes tentou romper com o modelo deixado por Renato
O primeiro movimento ocorreu em abril de 2021. Depois de quatro anos e sete meses da passagem mais longa de Renato pelo clube, o Grêmio contratou Tiago Nunes e anunciou inicialmente um compromisso até dezembro de 2022.

A escolha representava uma tentativa de modernização. Tiago queria um time com circulação rápida, pressão sobre a saída adversária e ocupação mais organizada dos espaços. A marcação deveria ser menos dependente de perseguições individuais e mais orientada por setores.
Na prática, o treinador tentou acelerar uma mudança profunda em um elenco acostumado ao modelo anterior. O começo teve resultados positivos, incluindo a conquista do Gauchão, mas a equipe perdeu desempenho na abertura do Brasileirão. Tiago deixou o cargo em julho, menos de três meses após ser anunciado.
Felipão foi contratado para uma missão completamente diferente. Em vez de promover uma transformação de longo prazo, precisava interromper a queda do time e recuperar a competitividade dentro do campeonato.
O treinador reforçou a proteção defensiva, aproximou as linhas e utilizou formações com três zagueiros em determinados momentos. Também buscou tornar a equipe mais combativa, mesmo que isso significasse entregar a posse ao adversário e atuar de maneira conservadora.
A passagem terminou em outubro. Felipão conseguiu reduzir parte da vulnerabilidade defensiva, mas não produziu a recuperação necessária. Atualmente coordenador técnico, ele voltou ao centro das discussões depois das informações sobre o espaço que teria para participar das decisões do vestiário.
Mancini buscou reação imediata e Roger retomou o jogo apoiado
Vagner Mancini assumiu ainda durante a luta contra o rebaixamento. Em sua apresentação, prometeu uma equipe agressiva com e sem a bola, capaz de atacar conforme a necessidade de cada partida e pressionar o adversário desde o campo ofensivo.
O trabalho procurou recuperar a intensidade e simplificar algumas funções. Mancini também tentou aumentar a velocidade das transições e dar maior liberdade aos jogadores de frente. A reação, no entanto, não impediu a queda para a Série B.
Mesmo após o rebaixamento, o treinador permaneceu para o começo de 2022. A direção decidiu interromper o trabalho em fevereiro e recorreu a Roger Machado, outro profissional identificado com o clube.

Roger retomou uma proposta baseada em construção desde a defesa, aproximações pelo meio e troca de passes curtos. Os volantes deveriam participar da saída, enquanto laterais e meias realizariam movimentos coordenados para criar superioridade nos setores.
O Grêmio passou a ter mais controle em algumas partidas, mas encontrou dificuldade para transformar posse em imposição ofensiva. Roger deixou o cargo em setembro, mesmo com a equipe posicionada na zona de acesso da Série B.
Renato recuperou confiança, garantiu acesso e permaneceu por três temporadas
O retorno de Renato mudou novamente a natureza do trabalho. Naquele momento, o Grêmio não procurava uma reconstrução completa do modelo, mas alguém capaz de mobilizar o grupo, aliviar a pressão e confirmar a volta à elite.
Renato utilizou o conhecimento do clube e a proximidade com os jogadores como ferramentas. Pediu apoio da torcida, simplificou a distribuição das funções e conduziu o time até o acesso, confirmado diante do Náutico nos Aflitos.

O treinador permaneceu para a reconstrução de 2023. Com Luis Suárez como referência, o Grêmio ganhou liberdade no ataque e terminou o Brasileirão como vice-campeão. O desempenho mostrou que o modelo poderia ser competitivo quando havia um jogador capaz de organizar e decidir as ações ofensivas.
O cenário mudou em 2024. Sem Suárez, com dificuldades na montagem do elenco e afetado pelas consequências das enchentes no Rio Grande do Sul, o time voltou a oscilar. A passagem de Renato entre 2022 e 2024 terminou ao fim daquela temporada.
Quinteros e Mano tentaram reorganizar o Grêmio em 2025
Gustavo Quinteros chegou após conquistar o Campeonato Argentino com o Vélez Sarsfield. A direção apostava em um treinador habituado ao futebol sul-americano e com uma proposta de intensidade.
O argentino definiu o que procurava de forma direta: uma equipe “agressiva, forte e sólida”. Quinteros desejava aumentar a pressão, acelerar os ataques e estabelecer uma disputa permanente por posição, sem garantir titularidade pelo nome ou pela experiência.
A implantação encontrou obstáculos. O Grêmio continuou vulnerável, não mostrou evolução suficiente e encerrou o trabalho em abril de 2025. Quinteros permaneceu menos de quatro meses no cargo.

Mano Menezes foi chamado para conter a instabilidade. Em seu retorno ao clube, priorizou posicionamento defensivo, compactação e transições mais seguras. O objetivo inicial era reduzir os espaços concedidos e dar previsibilidade ao comportamento coletivo.
O treinador conseguiu organizar uma base, mas o clube decidiu não renovar seu contrato ao final de 2025. A direção desejava abrir um projeto diferente para a temporada seguinte e entregou o comando a Luís Castro.
Luís Castro tenta evitar que o Grêmio comece tudo novamente
Contratado por duas temporadas, Luís Castro apresentou a proposta mais claramente voltada ao longo prazo desde Tiago Nunes. O português afirmou que desejava um Grêmio protagonista, com capacidade para controlar a bola, atacar e desenvolver jogadores jovens.
O trabalho busca criar mecanismos de posicionamento, saídas construídas e movimentações coordenadas. A ideia exige tempo de treinamento e repetição, mas passou a conviver rapidamente com a cobrança por resultados.

O próprio técnico já reconheceu que o Grêmio ainda paga uma “fatura do passado”, principalmente pelos pontos desperdiçados e pela instabilidade na formação da equipe. Ao mesmo tempo, a direção precisa decidir até onde está disposta a sustentar o projeto diante das oscilações.
A cronologia desde 2021 mostra que não faltaram ideias ao Grêmio. Faltou fazer uma delas sobreviver aos maus resultados, às mudanças de elenco e às crises internas.
Tiago Nunes quis modernizar. Felipão tentou proteger. Mancini buscou intensidade. Roger retomou o jogo apoiado. Renato mobilizou e recuperou a confiança. Quinteros cobrou agressividade. Mano ofereceu pragmatismo. Luís Castro procura construir um modelo de longo prazo.
O desafio atual não é apenas descobrir se o português está fazendo as escolhas corretas. O Grêmio também precisa determinar se continuará reiniciando o futebol a cada período de pressão ou se finalmente dará estrutura, autoridade e tempo para que um trabalho seja desenvolvido.









