O novo Fair Play Financeiro do futebol brasileiro começou a produzir consequências concretas e também alcança o planejamento de Grêmio e Inter. Um caso envolvendo o São Paulo mostrou nesta semana que uma dívida em contratação pode terminar em ameaça de transfer ban, enquanto a própria agência responsável pela fiscalização já lista negócios realizados pela dupla Gre-Nal entre as operações monitoradas em 2026.
Isso não significa que Grêmio ou Inter estejam sendo acusados de alguma irregularidade. Não existe, até o momento, notificação pública da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) contra qualquer um dos dois clubes. O monitoramento das operações é uma etapa normal do novo sistema e alcança as transações registradas no período determinado.
O alerta ganhou força porque o discurso da CBF deixou de tratar as punições apenas como algo futuro. Em entrevista publicada pelo ge, Ricardo Gluck Paul, vice-presidente da entidade e participante da construção do sistema, cobrou efetividade da fiscalização.
“a agência tem que funcionar. Porque as regras já estão aí. E são regras muito boas. A gente pegou as melhores práticas internacionais, algumas criadas por nós também, adaptadas”, afirmou o dirigente.
São Paulo já recebeu ameaça de transfer ban pelo novo sistema
O São Paulo foi acionado por uma dívida relacionada à contratação de Djhordney junto ao Novorizontino. O negócio, realizado em 2026, custou R$ 1 milhão, e o clube de Novo Horizonte denunciou à ANRESF o atraso de três parcelas que somavam R$ 600 mil.
A agência inicialmente concedeu prazo para que o São Paulo comprovasse a regularização. Sem a quitação dentro daquela etapa, foi determinada uma nova obrigação de pagamento, com prazo de 45 dias a partir de 12 de agosto.
Caso a pendência não seja solucionada ou um acordo não seja comunicado pelo credor, o São Paulo poderá ficar impedido de registrar novos atletas até a regularização. É justamente nesse detalhe que o episódio deixa de ser apenas um problema particular do clube paulista e passa a servir de exemplo para todo o futebol brasileiro.
A contratação de Djhordney aparece, inclusive, na mesma relação oficial de operações da primeira janela de 2026 que a ANRESF informa já estar monitorando.
A agência deixa claro que compromissos assumidos a partir de 1º de janeiro deste ano estão submetidos integralmente ao novo regime. Se uma obrigação registrada vencer e não for cumprida, os mecanismos de controle e eventual punição podem ser acionados.
Quais negócios de Grêmio e Inter já aparecem no monitoramento?
Na relação oficial da primeira janela, realizada entre 5 de janeiro e 3 de março, há operações envolvendo os dois clubes gaúchos.
Pelo lado do Inter, aparecem as chegadas de Victor Gabriel e Raykkonen. Victor Gabriel foi registrado em uma operação classificada como empréstimo para transferência junto ao Sport. Raykkonen também aparece nessa modalidade, vindo do Goiás.
No Grêmio, está registrada a transferência de Marlon Xavier junto ao Cruzeiro. A listagem publicada pela ANRESF informa que todas as operações apresentadas foram registradas no sistema da CBF e estão submetidas ao acompanhamento financeiro da agência.
O ponto exige cuidado: estar nessa lista não significa estar inadimplente. Na prática, a ANRESF passa a conhecer os valores e datas de vencimento dos instrumentos registrados. Caso uma obrigação não seja cumprida, o clube credor pode apresentar uma denúncia de inadimplemento. O sistema também trabalha com autodeclarações periódicas e comprovações de pagamento.
A agência monitora não apenas valores de transferências. Dívidas com empregados, como salários, direitos de imagem, FGTS e rescisões, também entram no requisito de solvência. Obrigações tributárias e previdenciárias fazem parte da fiscalização.
Esse acompanhamento interessa especialmente aos dois clubes gaúchos pelo momento financeiro vivido em Porto Alegre. O Zona Mista mostrou recentemente como o Inter passou a buscar novas estruturas para reorganizar seu passivo e aliviar compromissos futuros.
No Grêmio, o peso do futebol também apareceu nos demonstrativos da temporada. O Zona Mista revelou que o clube contabilizou mais de R$ 95 milhões em remuneração, encargos, luvas e direitos de imagem em apenas três meses.
Esses números, isoladamente, não permitem afirmar que qualquer um dos clubes esteja violando o Fair Play Financeiro. O regulamento possui critérios próprios, e ter dívida não é automaticamente uma infração. No requisito de solvência, por exemplo, um clube pode possuir passivos desde que as obrigações estejam sendo pagas nos vencimentos ou regularmente parceladas dentro das condições aceitas.
Dívidas antigas e novas recebem tratamentos diferentes
Existe outra diferença importante para compreender o impacto sobre Grêmio e Inter. As obrigações assumidas antes de 1º de janeiro de 2026 estão dentro de um período de adaptação que vai até 30 de novembro. Segundo a própria ANRESF, até essa data a sanção prevista especificamente para essas dívidas antigas fica limitada à advertência.
O tratamento é diferente para compromissos assumidos a partir de janeiro de 2026. Nessas operações, o regulamento já prevê aplicação do conjunto completo de sanções.
É por isso que os negócios atuais no mercado ganham tanta importância. Comprar um jogador parcelado não representa qualquer problema em si. O risco surge se uma parcela registrada vencer e o compromisso não for cumprido dentro das regras.
Essa distinção também impede conclusões precipitadas sobre cobranças antigas envolvendo Grêmio ou Inter. Uma dívida de anos anteriores não pode simplesmente ser transformada em ameaça imediata de perda de pontos ou rebaixamento pelo novo sistema sem verificar a data da obrigação e o enquadramento previsto pela ANRESF.
Transfer ban, perda de pontos e rebaixamento estão previstos
As punições citadas pelo vice-presidente da CBF não são apenas possibilidades levantadas durante uma entrevista. Elas aparecem oficialmente no regime de sanções publicado pela ANRESF.
A escala começa com advertência pública e pode avançar para multa e retenção de receitas. Depois aparecem restrições esportivas mais pesadas, como transfer ban, dedução de pontos, exclusão de competições e, no nível máximo, cassação da licença com rebaixamento.
Isso não quer dizer que qualquer atraso vá terminar em queda de divisão. A própria agência estabelece que a pena deve considerar proporcionalidade, reincidência, gravidade, vantagem esportiva, cooperação e boa-fé. Portanto, existe diferença entre uma primeira irregularidade solucionada rapidamente e um comportamento repetido ou uma tentativa de esconder informações da fiscalização.
No transfer ban brasileiro, o efeito mais importante para o futebol é semelhante ao de uma restrição internacional: o clube perde a possibilidade de registrar novos jogadores enquanto a punição estiver produzindo efeitos. O Zona Mista já explicou como o bloqueio de registros interfere diretamente no mercado de uma equipe, embora o procedimento da FIFA e o sistema brasileiro sejam estruturas diferentes.
O Fair Play nacional também pretende controlar o tamanho dos gastos com elenco em relação à capacidade financeira do clube. Entram nesse cálculo salários, direitos de imagem, luvas, bônus, amortização das compras de jogadores e comissões pagas a intermediários.
Para 2026, existe uma fase de transição com limite excepcional de 90% das receitas ajustadas para o indicador de custo do elenco. Isso amplia o impacto do sistema para além de uma simples fiscalização de parcelas atrasadas.
Grêmio e Inter, portanto, não estão hoje na mesma situação do São Paulo. Não existe evidência pública de processo semelhante contra a dupla Gre-Nal. O que mudou é o ambiente ao redor das operações.
O caso paulista mostrou que uma negociação registrada em 2026 pode sair da lista de monitoramento, virar denúncia de um credor e avançar até a ameaça concreta de bloqueio de registros.
Para a dupla Gre-Nal, o recado é simples: o novo Fair Play deixou de ser apenas uma promessa de regulamentação. Victor Gabriel, Raykkonen e Marlon Xavier aparecem em operações já acompanhadas pelo sistema, assim como outros negócios de clubes brasileiros. A partir de agora, contratar continua sendo parte do jogo — mas cumprir rigorosamente cada obrigação assumida passou a ter também uma consequência esportiva.









