A disputa entre Grêmio e Cascavel por valores relacionados à venda de Bitello ganhou um novo e pesado capítulo. Presidente do clube paranaense, Valdinei Silva acusou o Tricolor de ter utilizado recursos que deveriam ser repassados ao Cascavel para cumprir compromissos financeiros assumidos com Luis Suárez durante a temporada de 2023.
As declarações foram dadas à Rádio Gaúcha na noite de sexta-feira (21). Além de relacionar a dívida ao período em que o uruguaio defendia o Grêmio, Valdinei reagiu ao plano coletivo apresentado pelo clube à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) e afirmou ter determinado uma nova medida para contestar a proposta.
O Cascavel aparece atualmente como o maior credor do Grêmio no plano. O valor corrigido da cobrança é de R$ 6.842.122,97. Ao todo, o modelo apresentado pelo clube gaúcho reúne 23 credores, com uma dívida total corrigida de R$ 15.949.020,48, e prevê pagamentos em até 60 meses.
Foi ao falar sobre a origem da pendência que Valdinei fez a acusação mais forte da entrevista.
“O Grêmio abusadamente está usando nosso recurso desde quando vendeu o Bitello. Usou o nosso dinheiro para contratar o Suárez. É um absurdo, é uma vergonha”, afirmou o presidente do Cascavel.
A declaração precisa ser entendida dentro da cronologia do caso. Suárez foi anunciado pelo Grêmio em 31 de dezembro de 2022 e começou a defender o clube no início de 2023. Bitello, por sua vez, só foi vendido ao Dínamo Moscou em setembro daquele ano. Portanto, a venda do meia não poderia ter financiado originalmente a contratação do uruguaio.
A acusação de Valdinei se refere ao uso posterior de recursos que, segundo ele, deveriam ter sido repassados ao Cascavel enquanto o Grêmio ainda mantinha compromissos financeiros relacionados a Suárez. O dirigente não apresentou na entrevista documento contábil que demonstre que uma quantia destinada ao clube paranaense tenha sido direcionada especificamente ao atacante.
Cascavel reage ao plano de pagamento do Grêmio
A crítica de Valdinei não ficou restrita ao destino que ele atribui ao dinheiro da transferência. O presidente demonstrou forte insatisfação com a tentativa do Grêmio de reunir diferentes credores em um único plano de pagamento na CNRD.
O projeto prevê parcelamento dos débitos em até cinco anos e ainda depende de aprovação da Câmara para entrar em vigor. O Cascavel, por possuir a maior cobrança incluída na relação apresentada, passou a ser uma das principais vozes contrárias às condições pretendidas pelo clube gaúcho.
Valdinei afirmou ter determinado uma movimentação jurídica para tentar impedir que a dívida do Cascavel seja submetida ao modelo proposto.
“Agora vergonhosamente juntou ali meia dúzia de processo e está pedindo para prorrogar em 60 vezes. É uma vergonha. O Cascavel não contorna e eu já mandei entrar hoje à tarde imediatamente com a medida cautelar na Comissão Nacional, pedindo para que esse abuso, essa vergonha não seja aceita pela Confederação”, declarou.
O dirigente também pediu uma punição ao Grêmio e acusou o clube de irresponsabilidade na condução de seus compromissos financeiros.
“Que o Grêmio seja punido imediatamente pela sua irresponsabilidade financeira, pela sua falta de honradez para com os compromissos assumidos”, completou.
A manifestação do Cascavel não representa, neste momento, uma decisão da CNRD contra o Grêmio. O órgão ainda analisa o plano coletivo apresentado e estabelecerá se o modelo poderá ser colocado em prática e sob quais condições.
O Cascavel também encaminhou uma petição relacionada ao caso à CNRD, à CBF e à Federação Paranaense de Futebol. Procurado após as declarações de Valdinei, o Grêmio informou que não pretende se manifestar publicamente sobre questões que estejam em tramitação na Câmara.
Valdinei também cobra a atual direção do Grêmio
Durante a entrevista, Valdinei ampliou as críticas e responsabilizou diferentes administrações gremistas pela demora na solução da pendência. O dirigente mencionou as gestões de Romildo Bolzan Júnior e Alberto Guerra e afirmou que também não consegue avançar nas tratativas com o atual presidente, Odorico Roman.
Segundo Valdinei, o Grêmio teria prolongado a discussão ao longo dos últimos anos utilizando os instrumentos processuais disponíveis para contestar cobranças, apresentar documentos e pedir novos prazos.
“O Grêmio, desde o princípio, arrastou o processo no que pôde. Qualquer ponto, qualquer pé de galinha para o Grêmio dava uma sopa, pedia prazo, pedia para provar contrato. Enfim, arrastou o processo da forma que pôde”, afirmou.
A origem da disputa está na transferência de Bitello ao Dínamo Moscou. O meia foi negociado em setembro de 2023 por 10 milhões de euros, cerca de R$ 52 milhões na cotação da época. O Cascavel, clube formador do jogador, detinha 30% dos direitos econômicos.
Em dezembro daquele ano, após a discussão chegar à CNRD, o Grêmio repassou aproximadamente R$ 10,6 milhões ao Cascavel. O pagamento, porém, não encerrou a divergência. O clube paranaense sustenta que valores posteriores permaneceram pendentes, incluindo uma parcela que deveria ter sido quitada em julho de 2024.
Valdinei voltou a relacionar essa dinâmica financeira aos compromissos assumidos pelo Grêmio com Suárez.
“Tem que pagar primeiro para o clube que tem maior percentual. Aí o maluco vai lá e toma posse do seu dinheiro, dos seus recursos, abusa do seu dinheiro para trazer um jogador que tecnicamente ele não tem condição de pagar, que foi o caso do Suárez”, declarou.
A relação direta entre o dinheiro devido ao Cascavel e pagamentos feitos a Suárez permanece, portanto, como acusação do presidente do clube paranaense, e não como um fato contábil comprovado publicamente.
O novo episódio muda novamente o estágio de uma disputa que já atravessou diferentes administrações do Grêmio. O Cascavel não está apenas cobrando o saldo relacionado à transferência de Bitello: agora contesta formalmente o plano coletivo apresentado pelo Tricolor, pede punição na CNRD e associa a retenção dos recursos aos compromissos financeiros assumidos com um dos maiores jogadores da história recente do clube.









