A temperatura subiu na coletiva de Luís Castro depois da derrota do Grêmio por 2×1 para o Vasco na Arena. Questionado mais de uma vez sobre a qualidade do trabalho desenvolvido no clube, o treinador contestou a forma como as perguntas foram construídas, negou ter classificado sua passagem de maneira global como positiva e criticou a busca por declarações de maior repercussão.
O primeiro atrito aconteceu quando uma pergunta apresentou como premissa que o trabalho do treinador era ruim. Castro interrompeu o raciocínio para diferenciar a avaliação dos resultados da avaliação do processo conduzido pela comissão e afirmou que aceitava responder sobre o próprio desempenho, mas não queria comentar uma conclusão formulada previamente pelo entrevistador.
“Eu venho para responder a questões, não venho para ouvir afirmações. Pode me perguntar assim: ‘O que é que acha do seu trabalho?’. Agora, não vai pedir para comentar aquilo que são as suas afirmações. Uma coisa é o resultado. Outra coisa é o nosso trabalho. Resultado é um mau resultado. Mas temos entregado por completo aquilo que é o trabalho”, afirmou Luís Castro.
O assunto reapareceu mais adiante, quando outro repórter citou a campanha do Brasileirão, a eliminação precoce na Sul-Americana e perguntou onde o português identificava aspectos positivos em seu comando. Desta vez, Castro voltou a negar que tivesse acabado de fazer uma defesa irrestrita do trabalho e passou a criticar também a forma como respostas de coletivas ganham repercussão.
Luís Castro fala em “sangue”, engajamentos e cortes
Foi nesse momento que o técnico usou a declaração mais forte da discussão. Castro afirmou conhecer a dinâmica de cortes de entrevistas e engajamento nas redes e sugeriu que determinadas perguntas buscavam justamente uma resposta mais conflituosa.
“Eu sei que neste momento o que vende é sangue e sei que as perguntas é para eu responder para haver sangue. É isso. Você já sabe que eu sei como se vive. E os engajamentos e tudo isso, eu sei os cortes, eu sei tudo isso”, declarou Castro.
O treinador, porém, não encerrou a resposta na crítica. Depois do bate-boca, passou a explicar com mais detalhes quais partes do trabalho considera defensáveis. Um dos pontos citados foi o aproveitamento de jovens e a capacidade de gerar valor ao clube em um momento de dificuldades financeiras.
“Posso dizer que o trabalho pode ser bom na promoção de jovens que nós tivemos ao longo do ano, da venda que fizemos num momento financeiro difícil do clube. Posso considerar que o trabalho é bom a nível daquilo que foi a promoção de dois jogadores da academia (Viery e Gabriel Mec) e a forma como eles geraram valor para o clube”, explicou.
Castro também citou a política utilizada para formar parte do elenco, destacando atletas procurados em mercados de menor investimento. A fala apareceu como outro exemplo daquilo que, na avaliação do treinador, não pode ser ignorado em uma análise mais ampla da temporada.
“Posso dizer que o trabalho é bom se disser que fomos buscar jogadores à Série B. Não fomos buscar jogadores por milhões, fomos buscar jogadores à Série B (Diego Caito e Wallace). Desenvolvemos, pusemos a jogar e os jogadores estão a desenvolver e estão em patamares de rendimento bons”, acrescentou.
Na parte esportiva, o português voltou a fazer a separação que havia apresentado em outros momentos da coletiva. Castro citou o título estadual e a classificação para a semifinal da Copa do Brasil como resultados positivos, mas imediatamente colocou o Brasileirão em outro patamar de avaliação.
“Posso dizer que o trabalho foi bom quando nós ganhamos o Gauchão na casa do Beira-Rio, onde nós conquistámos o estadual perante um rival direto. Posso dizer que foi bom quando nós classificamos a equipa para a semifinal da Copa do Brasil”, afirmou.
“Posso dizer que o trabalho é deficiente no Brasileirão, como eu já respondi a um colega seu. Eu nunca disse que o trabalho era bom na sua globalidade, porque sei que, hierarquicamente, o Brasileirão é a nossa grande prioridade”, completou.
A explicação se conecta à avaliação feita por Castro sobre a própria posição no Grêmio, quando o português também separou os resultados obtidos nas diferentes competições e afirmou que sempre procurou representar uma solução nos clubes em que trabalhou.
A relação entre Castro e as cobranças públicas já havia produzido outro episódio de tensão em agosto. Depois da derrota para o Bragantino, o treinador fez um longo desabafo sobre treinos fechados e críticas ao trabalho realizado no CT. Desta vez, o confronto ocorreu diretamente durante a entrevista posterior ao Vasco.
Mesmo irritado, Castro encerrou o raciocínio reconhecendo novamente a gravidade do momento. O português afirmou que não pretende esconder a campanha ruim nem transformar os pontos positivos da temporada em argumento para amenizar aquilo que acontece no Brasileirão.
“Não vamos transformar o momento em que o Grêmio, em que o treinador do Grêmio e o seu elenco não vivem um bom momento. Não vivem. Vivem um momento muito, muito, muito difícil. Não o vou transformar e não o vou dourar para vender de outra forma. Eu sempre assumi, nestes 30 anos de carreira, tudo aquilo que eu fiz. O bom e o mau. Sempre”, declarou.










