Uma sequência de declarações envolvendo Alex Bagé e Luís Castro chama atenção em meio ao momento conturbado vivido pelo Grêmio. Uma semana depois de o comunicador ironizar publicamente o trabalho realizado pelo treinador no CT Luiz Carvalho, questionar os treinos fechados e usar Abel Ferreira como comparação, o português abordou justamente esses assuntos em um longo desabafo após a derrota para o Bragantino.
Castro não mencionou Bagé nominalmente durante a coletiva deste domingo. As manifestações, porém, apresentam pontos de contato bastante específicos. O treinador falou sobre a impossibilidade de a imprensa acompanhar sua rotina de treinamentos, defendeu o trabalho desenvolvido no CT, cobrou respeito de profissionais que vivem do futebol e encerrou o pronunciamento citando Abel Ferreira.
Uma semana antes, Bagé havia feito uma provocação justamente sobre o trabalho que a direção gremista costuma elogiar nos bastidores. Em live no Bagé TV, o comunicador questionou por que os treinamentos não eram abertos se a avaliação interna era tão positiva e ironizou dizendo que, naquele ritmo, o Grêmio teria de mandar seus jogos no CT em vez da Arena.
A manifestação já havia sido repercutida depois da derrota para o Atlético-MG. Bagé também utilizou Abel Ferreira para comparar o grau de respaldo recebido pelos dois portugueses.
Luís Castro responde tema dos treinos e questiona cobrança
Neste domingo, depois do 1×0 sofrido diante do Bragantino, Castro recebeu uma pergunta sobre o trabalho que tanto ele quanto a direção dizem enxergar no dia a dia. O questionamento ressaltava que imprensa e torcida não acompanham os treinamentos fechados e, por isso, têm dificuldade para enxergar aquilo que é apontado internamente como positivo.
Castro reagiu defendendo sua experiência e deixou claro que não considera necessário abrir a rotina para que seu trabalho seja avaliado.
“Confio no trabalho, confio nos jogadores, confio na honestidade dos jogadores, confio na dedicação dos jogadores, confio no dia a dia do nosso trabalho. Sabemos o que fazemos, não é preciso ninguém ver os treinos. Eu não treino há um ano, não treino há dois. Treino há 30”, afirmou Luís Castro.
O treinador ainda questionou diretamente a ideia de que o Grêmio deveria ser uma exceção e permitir acompanhamento maior da imprensa.
“Ninguém tem dentro dos clubes a imprensa a ver os treinos. Tinha que ter o Grêmio, é isso que me está a dizer? Não, não tem que ter. Temos é que apresentar melhores resultados. Já sei que temos de apresentar melhores resultados”, prosseguiu.
A resposta chama atenção pela proximidade com a provocação feita dias antes por Bagé. O comunicador havia justamente associado os treinos fechados ao argumento recorrente da direção de que o desempenho cotidiano da comissão técnica seria melhor do que aquele visto nos jogos.
Castro separa torcida de profissionais da imprensa
O discurso ganhou outro rumo mais tarde. Ao comentar críticas e ofensas recebidas no ambiente do futebol, Castro fez uma distinção explícita entre o comportamento emocional do torcedor dentro do estádio e o tratamento dado por pessoas que trabalham profissionalmente com o esporte.
O português afirmou aceitar críticas duras ao seu trabalho, inclusive avaliações negativas sobre sua capacidade naquele momento. Para ele, a linha é ultrapassada quando a discussão deixa o campo profissional e passa para ataques pessoais.
“Há várias formas de criticar o trabalho de um treinador. Não é preciso ofendê-lo. Crítica construtiva é algo que tem de estar sempre presente na nossa vida. E nós crescemos com essa crítica construtiva”, declarou.
Na sequência, Castro direcionou a manifestação também à imprensa.
“Vocês não podem viver do futebol tratando mal as pessoas do futebol. Isso não pode existir. Uma coisa é nós discutirmos futebol, uma coisa é nós não estarmos de acordo uns com os outros. Vamos falar de futebol. E a imprensa tem que ter respeito para conosco”, afirmou.
Castro fez questão de separar esse ambiente da arquibancada. Segundo ele, entende que o torcedor no estádio possa gritar e até xingar no calor da partida, porque considera a torcida parte central da existência dos clubes.
“Uma coisa é o coração do estádio. Eu vou ao estádio, não estou a gostar, eu grito, eu até posso chamar nomes. Mas é o coração do estádio. O coração da torcida é uma coisa. Outra coisa é a ofensa pessoal. A ofensa pessoal não pode existir nunca”, completou.
Abel Ferreira aparece novamente no discurso
É justamente no encerramento dessa manifestação que aparece outra coincidência. Uma semana antes, Bagé havia citado Abel Ferreira para argumentar que a blindagem dada a Castro no Grêmio seria proporcionalmente ainda maior do que a proteção recebida pelo treinador multicampeão do Palmeiras.
Neste domingo, foi Castro quem recorreu ao compatriota.
“Agora, viver do futebol e maltratar as pessoas que estão dentro do futebol… Peço licença ao Abel para dizer o que vou dizer. Não é o futebol que está doente, são as pessoas que estão doentes, as pessoas que estão no futebol”, concluiu.
Abel Ferreira falou depois da vitória do Palmeiras por 1×0 sobre o Cerro Porteño, em Assunção, resultado que classificou o time às quartas de final da Conmebol Libertadores. Na coletiva, fez um longo desabafo contra a obsessão por resultados e contra parte da imprensa.
“O futebol, de modo geral, está doente. Muitos de vocês, da imprensa, da forma como falam, intoxicam o futebol brasileiro”, disse Abel.
Tudo isso ocorre enquanto aumenta a pressão sobre o treinador. A própria direção já admite que os resultados precisam aparecer nos próximos compromissos, que começam pelos dois Gre-Nais das quartas de final da Copa do Brasil.









