
A estátua de Abel Braga que será inaugurada no complexo do Beira-Rio terá um financiador improvável. Cadu Guerra, presidente da Allu, é mineiro, torcedor do Cruzeiro e sequer nasceu colorado. Mesmo assim, o empresário decidiu assumir todos os custos da homenagem ao atual diretor técnico do Inter após acompanhar a dramática permanência do clube na Série A em 2025.
A obra tem inauguração projetada para agosto, mês em que o Inter completará 20 anos da primeira conquista da Conmebol Libertadores. A tendência é que o monumento seja instalado no pátio do Beira-Rio, em um espaço próximo à estátua de Fernandão, diante da Avenida Padre Cacique. A imagem escolhida foi inspirada em um momento de Abel na temporada de 2006 e recebeu a aprovação do próprio homenageado e do clube.
A ligação de Cadu com o Inter começou por meio da parceria comercial da Allu, empresa especializada na assinatura de eletrônicos. O empresário contou que o acordo abriu um novo mercado para a companhia e também o aproximou de dirigentes, funcionários e torcedores. A identificação cresceu justamente durante um dos períodos mais angustiantes da história recente colorada.
Na última rodada do Brasileirão de 2025, o Inter entrou em campo na 18ª colocação e precisava vencer o Bragantino, além de depender de resultados paralelos. Cadu chegou a incentivar empresários colorados a comparecerem ao Beira-Rio, mas decidiu não viajar para Porto Alegre por superstição. O voo de volta para Belo Horizonte atrasou e ele acompanhou parte da partida pelo celular, durante o trajeto do aeroporto.
Mercado abriu o placar no segundo tempo, Alan Patrick ampliou e Carbonero marcou o terceiro gol da vitória por 3×1. Com a combinação necessária nas demais partidas, o Colorado permaneceu na primeira divisão. A missão cumprida por Abel Braga nos dois últimos jogos provocou uma forte mobilização nas redes sociais e deu origem ao projeto que agora se aproxima da conclusão.
Oferta surgiu logo após a permanência do Inter
Depois da confirmação da permanência, Cadu acompanhou a entrevista coletiva de Abel e percebeu que muitos torcedores defendiam a construção de uma estátua. O empresário publicou uma mensagem concordando com a homenagem e acrescentou que estava disposto a financiar a obra, desde que a direção colorada aprovasse a iniciativa.
“Se a diretoria estiver de acordo, me ofereço a financiar a construção”, escreveu o presidente da Allu na ocasião.

A postagem ganhou repercussão rapidamente. Entre mensagens bem-humoradas de torcedores que pediam contratações e investimentos milionários, o diretor de negócios do Inter, Alexandre Godoy, procurou Cadu para saber se a proposta era verdadeira. O empresário confirmou que não se tratava de uma brincadeira e que a patrocinadora pretendia levar o plano adiante.
O assunto chegou ao Conselho de Gestão, recebeu resposta positiva e motivou a criação de um grupo de trabalho. Inter e patrocinadora passaram a discutir o artista, o modelo da escultura, a produção e a melhor data para a entrega. Antes disso, Cadu também havia oferecido a Abel a primeira assinatura vitalícia dos serviços da empresa.
A mobilização por uma homenagem ganhou força imediatamente depois da fuga do rebaixamento. Rafael Sobis foi um dos personagens identificados com o clube que defendeu publicamente uma estátua para Abel Braga. Para parte da torcida, a recuperação de 2025 completou uma história que já havia sido eternizada pelos títulos da Conmebol Libertadores e do Mundial.
O passo institucional ocorreu em 2 de março de 2026. Em sua primeira sessão no ano, o Conselho Deliberativo do Inter aprovou por aclamação o projeto da estátua. A reunião contou com 208 conselheiros e conselheiras, e Abel recebeu mais de um minuto de aplausos depois da votação.
Homenagem reúne o Abel de 2006 e o salvador de 2025
A escolha de agosto para a inauguração não é casual. O mês marcará duas décadas da primeira Conmebol Libertadores conquistada pelo Inter. Com Abel no comando, o Colorado derrotou o São Paulo na decisão e abriu o caminho para o título mundial sobre o Barcelona, no Japão, em dezembro daquele mesmo ano.
Abel teve oito passagens pela casamata colorada e comandou a equipe em 342 jogos. Além da Conmebol Libertadores e do Mundial de 2006, conquistou os Campeonatos Gaúchos de 2008 e 2014 e a Copa Dubai de 2008. Em 2020, ainda conduziu o clube ao vice-campeonato brasileiro antes de retornar, cinco anos depois, para a missão emergencial contra o rebaixamento.

A homenagem também representa o novo papel ocupado pelo ídolo no clube. Depois de dirigir o time nas rodadas finais de 2025, Abel descartou continuar como treinador e assumiu a função de diretor técnico. Seu contrato vai até dezembro de 2026, com atuação estratégica no futebol profissional, na integração com as categorias de base e no apoio à comissão técnica e aos jogadores.
Esta não será a primeira escultura de Abel no Rio Grande do Sul. Em fevereiro, amigos, torcedores e conselheiros inauguraram uma obra em Atlântida, no Litoral Norte. Na ocasião, o ídolo apareceu sentado, com uma taça de vinho nas mãos. Abel participou da cerimônia, brindou ao lado da própria representação e voltou a declarar seu vínculo com o Inter. A estátua inaugurada em Atlântida nasceu de uma iniciativa particular, enquanto o novo monumento terá caráter oficial e ficará no complexo do estádio.
Cadu conheceu Abel pessoalmente em maio, durante uma visita ao CT Parque Gigante. O empresário relatou ao dirigente que torceu pelo Inter no Mundial de 2006 e guardava lembranças da vitória sobre o Barcelona. A conversa reforçou uma admiração que começou pelas conquistas esportivas e aumentou após a decisão de Abel de abandonar a aposentadoria para ajudar o clube em 2025.
A estátua, portanto, não celebrará somente o treinador campeão do mundo. Ela também representará o profissional que aceitou colocar sua própria história em risco durante duas rodadas decisivas. Para Cadu Guerra, foi essa combinação entre passado, coragem e identificação que tornou natural transformar uma postagem nas redes sociais em uma homenagem permanente no Beira-Rio.









