Ex-assessor do Grêmio lembra relação espetacular com Renato e diz ter se emocionado com entrevista “histórica” de Kannemann

Reportagem do site Zona Mista publica entrevista exclusiva com o ex-assessor de imprensa do Grêmio, João Paulo Fontoura

Assessor de imprensa do elenco profissional do Grêmio por uma década, João Paulo Fontoura, o JP, abriu à reportagem do Zona Mista detalhes escritos no seu recém-lançado livro “Jornalismo e Vestiário: histórias e bastidores contados por um assessor de imprensa” (saiba como comprar aqui) e falou com orgulho quando perguntado da relação – segundo ele, “espetacular” – que tinha com o ex-técnico do clube, Renato Portaluppi.

Sincero, o jornalista admitiu ter se sentido “representado” na até hoje lembrada entrevista coletiva de Kannemann no início de 2020 quando o argentino, irritado, se revoltou contra a decisão da direção em demitir uma série de funcionários gremistas – dentre eles, JP. No bate-papo, Fontoura ainda lembra a venda de Marcelo Grohe no final de 2018 ao Al-Ittihad, da Arábia Saudita, indicando que, com um esforço maior, a direção do Grêmio poderia ter mantido o arqueiro.

Zona Mista: Como surgiu a ideia de lançar um livro resgatando histórias de bastidores do seu período no Grêmio e o que o torcedor gremista encontrará ao ler a publicação? 

João Paulo Fontoura: Não houve um momento específico para esta decisão. O que houve desde sempre foi a minha percepção jornalística de que ocupar o cargo de assessor de imprensa naquele momento seria – e de fato foi – uma oportunidade muito especial que poucos jornalistas têm, até mesmo pelo fato do setor ser relativamente jovem no ambiente do futebol. Assim, de alguma maneira, posso dizer que sempre tive vontade de documentar a minha passagem. Ao longo de dez anos essa ideia foi amadurecendo naturalmente pelos marcos que o clube passou e pelo desenvolvimento da minha relação com alguns de seus personagens históricos mais importantes. Um deles, aliás, em especial, me motivou a isso: o Seu Verardi que lançou sua biografia em 2018 e com quem tinha uma relação acima da média. Quando deixei o clube em janeiro de 2020 procurei a professora Rosângela Florczak, especializada em Gerenciamento de Crise, para propor escrever um artigo científico a respeito da profissionalização da função no futebol. Ela me provocou a escrever um livro e dali foi um pulo para pôr a mão na massa em termos de conteúdo e iniciar a escrever. O torcedor poderá observar uma perspectiva diferente do que geralmente se publica sobre futebol. É a visão de um assessor de imprensa e com o viés da comunicação, das relações que existem no vestiário e fundamentalmente como se portar diante delas. Ao contrário da maioria dos casos, neste as decisões ou participações do assessor ganham a esfera pública e sendo assim, precisam ser bem pensadas, ainda que não haja tempo para isso muitas vezes.

ZM: Ainda em cima do livro, qual parte você colocaria como a mais difícil de exercer dentro do trabalho de assessor de imprensa do elenco profissional de um clube como o Grêmio? 

JP: As relações que se estabelecem com o passar do tempo. Os interesses contidos em um vestiário muitas vezes não são os mesmos, ainda que o bem maior seja o da vitória, por exemplo. O fato de todos desejarem a mesma coisa não indica um posicionamento idêntico diante de cenários distintos. O maior alvo em um vestiário é sempre o treinador e, independente do nome, é com quem se estabelece o vínculo mais próximo pela convivência diária. Nele convergem todas as cobranças de time e de liderança de grupo, portanto é natural uma maior aproximação com ele. No entanto, isso nem sempre é bem visto, pois um gesto de proteção pode significar contrariar os interesses de um dirigente que já não quer mais aquele cara, ou de um jogador, por exemplo, que está insatisfeito e não encontra eco no assessor na sua insatisfação. O assessor ali é ‘‘algodão entre os cristais’’ e tem uma relação de dependência e lealdade. Não pode falhar nunca com ninguém, mesmo que por ventura, falhem contigo.

ZM: Um dos capítulos trata abertamente da saída do Marcelo Grohe de 2018 para 2019 e você aponta que “da boca dele” nem você nem outros dirigentes escutaram o desejo de sair do Grêmio. Eu te pergunto: como era a sua relação com Grohe? Acha que era possível a permanência dele com uma insistência maior da direção? 

JP: Minha relação com o Marcelo ainda é extraordinária. Neste final de semana ainda trocamos mensagem depois de uma postagem minha no Instagram entregando o livro à família dele aqui em Porto Alegre. Conforme descrevo no livro, quando tomei conhecimento da proposta árabe por ele, achei estranho. Não eram números altos e ele tinha mais dois anos de contrato a cumprir, sequer podendo lançar mão de uma hipotética pressão diante da possibilidade do clube não lucrar com a venda. É bom o torcedor recordar que naquele momento não havia executivo no futebol e os dirigentes políticos com quem conservo a amizade até hoje estavam em período de recesso. Quem conduziu a negociação foi o CEO do clube Carlos Amodeo. Conforme o relato das pessoas que conversei na época, não houve nenhuma manifestação por parte dele ou movimento indicando a vontade de não perder o ídolo da torcida. Tenho para mim que ao Renato e à direção foi contada uma história diferente da que de fato se desenrolava. Lembremos que não demorou muito para o anúncio do também goleiro Júlio Cesar, um atleta mais barato e que dos dois anos que esteve no clube, atuou apenas no primeiro, pois no segundo a direção buscou o Vanderlei. Na escrita do livro questionei o presidente sobre esse episódio e antes de responder, ele fez questão de afirmar que não lembrava quem havia sido o responsável pela condução das negociações com o Marcelo Grohe.

ZM: Durante grande parte do seu trabalho na assessoria do Grêmio, você teve o Renato como treinador do time e comandante do grupo. Como era a relação com ele? Era um cara difícil ou fácil de se trabalhar? 

JP: Minha relação com o Renato era e ainda é espetacular. Ele sempre foi atencioso com a assessoria e sempre soube para quem dar confiança e eu era uma dessas pessoas. Várias vezes tivemos posições diferentes e nunca deixei de respeitar o comando dele ou de qualquer outro treinador. Pela proximidade que se desenvolveu durante as três passagens dele – mais especificamente a última – e por me considerar mais rodado no clube, o alertei de algumas coisas que não era em prol do Grêmio e por isso tenho minha consciência muito tranquila.

ZM: Poucos dias depois da sua saída em 2020, que ocorreu junto com a saída de outros profissionais do Grêmio, o Kannemann deu a famosa entrevista coletiva dizendo ter “raiva” de uma decisão que tirava profissionais que davam a vida pelo clube. Você se sentiu representado por esta entrevista? Foi pego de surpresa por sua própria saída? 

JP: Sem dúvida alguma me senti representado. Horas antes da minha demissão eu estava jantando com o gringo e com o Geromel, a convite do então capitão, justamente para darmos apoio a um dos quatro colegas que havia sido demitido uma semana antes. Conto detalhes desse encontro no livro e quando ouvi a entrevista – a meu juízo histórica – não tive como não me emocionar. Horas depois do mandatário máximo do clube, em uma coletiva, tentar contemporizar um movimento de demissões com explicações vazias, foi duramente afrontado por um funcionário, este sim, ídolo da torcida. Tanto se mostraram vazias as explicações que de lá para cá, praticamente todos os setores trocados naquele instante sofreram novas alterações – alguns mais de uma.

ZM: Por tudo que você viveu ao longo dos últimos anos com a maioria dos jogadores atuais e também com a atual direção, você está surpreendido pela fase difícil do time dentro de campo? 

JP: Não me sinto confortável para falar sobre o momento atual. No Grêmio, fui assessor de imprensa, nunca torcedor, apesar de o ser há 39 anos. Meu livro foi inteiramente escrito até agosto de 2020 e aborda somente temas e episódios do período em que estive no clube. Como pessoa e jornalista meu compromisso foi relatar o que eu vivi e presenciei.

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