A contratação de Eduardo Baptista pelo Inter trouxe de volta uma história que aconteceu três décadas antes no Beira-Rio. Nelsinho Baptista, pai de Eduardo Baptista, também comandou o clube, mas teve uma passagem curta e encerrada de maneira turbulenta em 1996, quando decidiu deixar Porto Alegre no meio do Campeonato Brasileiro para assumir o Corinthians.
Nelsinho havia retornado ao futebol brasileiro naquele ano depois de trabalhar no Japão. Contratado pelo Inter durante o primeiro semestre, permaneceu 153 dias no comando e dirigiu a equipe em 27 partidas. Foram 10 vitórias, nove empates e oito derrotas, aproveitamento próximo de 48%. No Brasileirão, acumulou três vitórias, três empates e quatro derrotas.
A passagem terminou imediatamente depois de um dos jogos mais sensíveis para qualquer treinador colorado. Em 22 de setembro de 1996, Nelsinho comandou o Inter em um Gre-Nal no Beira-Rio e viu o Grêmio vencer por 2×1. No dia seguinte, deixou o cargo. Pouco depois, acertou o retorno ao Corinthians, clube que já havia treinado anteriormente e pelo qual conquistara o Campeonato Brasileiro de 1990.
Nelsinho deixou o Inter e acertou rapidamente com o Corinthians
A velocidade da mudança aumentou a irritação no Beira-Rio. Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 25 de setembro daquele ano informava que Nelsinho chegaria à capital paulista naquele dia para assinar um contrato de dez meses com o Corinthians. O texto registrava que o treinador havia deixado o Inter dois dias antes.
O preparador físico Flávio Trevisan, que trabalhava com Nelsinho no Colorado, também seguiu para o clube paulista. Conforme o relato da época, a direção do Inter não permitiu que os dois se despedissem dos jogadores antes da viagem.
Anos depois, em uma retrospectiva publicada em 2008, a Zero Hora relembrou que a ruptura provocou indignação entre dirigentes colorados. O então vice-presidente de futebol Paulo Rogério Amoretty criticou a postura do treinador, enquanto o presidente Pedro Paulo Zachia foi direto ao comentar sua saída. “Quero que ele seja feliz, mas longe do Beira-Rio”, declarou Zachia na época.
A mesma retrospectiva recuperou uma declaração que se transformaria no ponto mais lembrado daquela história. Segundo o jornal, ao trocar o Inter pelo Corinthians, Nelsinho teria justificado a decisão dizendo que estava “indo para um clube grande”. A frase ganhou forte repercussão entre colorados e continuou sendo associada ao treinador nos anos seguintes.
O episódio voltou a aparecer nesta semana após a chegada do filho ao Beira-Rio. Ao criticar a escolha de Eduardo Baptista, o jornalista Alexandre Ernst recuperou justamente a saída de Nelsinho e a declaração atribuída ao ex-comandante colorado.
Rompimento entre Inter e Nelsinho Baptista chegou à Justiça
A separação não terminou com a ida para São Paulo. O Inter também buscou uma indenização do antigo treinador. Registros da época apontam que o clube reclamava valores relacionados ao rompimento do contrato, e a questão chegou à esfera trabalhista.
Na retrospectiva publicada em 2008, a Zero Hora relatou que o Colorado cobrava R$ 25 mil pelo não cumprimento de aviso prévio, além de perdas e danos por declarações dadas por Nelsinho em um programa de televisão. Em novembro de 1996, quando o treinador retornou a Porto Alegre para enfrentar seu ex-clube, o conflito ainda repercutia fora do campo.
A rejeição era tamanha que dirigentes colorados pediram publicamente aos torcedores que limitassem os protestos às vaias. Dias antes da partida, Nelsinho havia sido chamado de traidor por manifestantes durante uma audiência trabalhista na capital gaúcha.
O reencontro ocorreu no Beira-Rio pelo próprio Campeonato Brasileiro. Já comandado por Elias Figueroa, que assumira depois da saída de Nelsinho, o Inter venceu o Corinthians por 2×0, com gols de Arílson e Marcelo. Mais de 47 mil torcedores acompanharam a partida, e o antigo treinador foi hostilizado durante a noite.
A derrota também teve consequência esportiva para Nelsinho: o Corinthians acabou eliminado da disputa por uma vaga na fase seguinte da competição.
História voltou a ser lembrada em outras saídas do Inter
O caso permaneceu no imaginário colorado mesmo muitos anos depois. Em 2020, quando Eduardo Coudet deixou o Inter durante o Campeonato Brasileiro para assumir o Celta de Vigo, Fabiano Baldasso chegou a comparar o argentino a Nelsinho Baptista, mostrando como a saída de 1996 ainda servia como referência para mudanças inesperadas de treinador.
Trinta anos depois, a ligação voltou ao noticiário por uma razão diferente. Eduardo Baptista chega ao Beira-Rio para escrever sua própria trajetória, sem qualquer participação no episódio protagonizado pelo pai. Ainda assim, a coincidência familiar recuperou uma das trocas de treinador mais controversas da história recente do Inter.









