
E agora?
Abel Braga está oficialmente de volta ao comando do Inter para tentar evitar o segundo rebaixamento da história colorada. O clube anunciou neste sábado a contratação do técnico de 73 anos para as duas rodadas finais do Brasileirão, horas depois da demissão de Ramón Díaz, abatido pela goleada sofrida por 5×1 diante do Vasco em São Januário. A aposta da direção é na mística de um treinador multicampeão pelo clube em meio a um vestiário abalado.
A situação na tabela é crítica. Com o triunfo do Vitória sobre o Mirassol por 2×0, também neste sábado, o Inter foi empurrado para a zona do rebaixamento e hoje abre o Z4, em 17º lugar, com 41 pontos. De acordo com projeções divulgadas por especialistas em estatísticas, o risco de queda colorado subiu para a casa dos 40%, dividindo o drama com o Santos, que soma a mesma pontuação. A matemática é clara: vencer os dois jogos finais praticamente encerra o pesadelo.
A tabela reserva dois confrontos de altíssimo peso emocional para Abelão. Na quarta-feira, o Inter visita o São Paulo, na Vila Belmiro, pela penúltima rodada do campeonato. Será o reencontro com o rival que foi vice na final da Conmebol Libertadores de 2006, naquele título histórico comandado justamente por Abel Braga. No domingo seguinte, o Colorado fecha sua participação diante do Red Bull Bragantino, no Beira-Rio lotado e tomado pela tensão, em um jogo que pode selar a permanência ou marcar um novo trauma na história recente do clube.
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Inter em 17º, missão de duas vitórias e pressão máxima na reta final
Os bastidores do Beira-Rio fervilharam desde o apito final em São Januário. A goleada para o Vasco escancarou problemas técnicos, físicos e psicológicos de um elenco que não consegue sustentar boas atuações durante 90 minutos. A resposta do clube foi rápida: demissão de Ramón Díaz, reuniões de emergência e o acerto com Abel Braga ainda na tarde de sábado, em clima de urgência e sensação de “última cartada” para evitar o pior.
Na comunicação oficial, o Inter destacou que esta será a oitava passagem de Abel pelo clube, reforçando o peso de sua história. O treinador é o técnico que mais vezes dirigiu o Colorado, com 340 jogos, e uma coleção de títulos que inclui Mundial de Clubes e Conmebol Libertadores de 2006, além de Gauchões e campanhas fortes no Brasileirão, como o vice de 2020. Para tentar repetir o papel de “salvador”, ele terá ao seu lado o preparador físico Élio Carravetta, também chamado de volta para ajudar na recuperação mental e física do elenco no CT Parque Gigante.
O momento, porém, é bem diferente dos tempos de glória. A equipe vem de derrota pesada para o Vasco e já havia tropeçado em casa diante do Santos, resultados que minaram a confiança das arquibancadas. A análise de especialistas e de parte da própria torcida é dura: o Inter está “moralmente rebaixado” e só um choque de ambiente, somado a duas atuações quase perfeitas, pode reverter o cenário. É justamente aí que entra a figura de Abel, conhecido por seu discurso direto, pela capacidade de blindar o grupo e pela relação próxima com o torcedor.
Antes mesmo de ser anunciado, Abel já vinha se manifestando publicamente sobre a briga contra o rebaixamento. Em entrevista recente à Rádio Gaúcha, ele demonstrou confiança na capacidade de reação colorada, mesmo com o time já pressionado pela tabela. O treinador avaliou cenários de pontuação e deixou claro que ainda enxergava margem para evitar o pior, desde que o grupo fosse empurrado pela arquibancada e conseguisse transformar desempenho em resultados.
“Não vai cair. Eu acredito imensamente. Já fiz as contas”, disse Abel Braga em entrevista à Rádio Gaúcha, dias antes de acertar seu retorno ao Inter.
A fala ganha novo peso agora que ele assume a área técnica. Se antes era um ídolo analisando à distância, a partir deste domingo Abel passa a comandar treinos e decisões de escalação no dia a dia do vestiário. A tendência é que ele busque simplificar o modelo de jogo, ajustar a estrutura defensiva e valorizar jogadores experientes em um momento em que o emocional pesa tanto quanto a tática. A recuperação de confiança passa também por um ambiente mais leve, algo que o técnico costuma trabalhar com conversas francas e proteção pública ao elenco.
No lado da arquibancada, a sensação é de última cartada. O torcedor colorado revive memórias da Conmebol Libertadores e do Mundial, mas olha para a tabela e enxerga um filme de terror recente, o da queda de 2016. Entre a fé na mística de Abelão e o temor de um novo descenso, o Inter entra na semana mais dramática de sua temporada. São Paulo fora e Bragantino em casa definem se a volta de Abel será lembrada como o milagre da salvação ou como mais um capítulo doloroso na história do clube.
O estado de saúde de Abel Braga e a aposentadoria da prancheta em 2022
Em 2022, já aos 70 anos, Abel anunciou aposentadoria da função de treinador citando o desgaste físico e mental com o calendário e, principalmente, com o excesso de viagens. Em entrevista ao longo daquele ano, o técnico afirmou que não aguentava mais a rotina de deslocamentos e passou a mirar apenas trabalhos fora da beira do campo, como coordenador técnico.
Em 2024, em conversa reproduzida por portais esportivos, o treinador foi além e ligou diretamente esse desgaste a um problema de saúde. Ao explicar por que não queria mais trabalhar como técnico, Abel mencionou que tomou a decisão “por causa da minha coluna” e contou que, no período em que atuou no Vasco, chegou a combinar que não viajaria para partidas fora de casa para evitar o sofrimento com as longas deslocações. A preocupação com a parte física, somada ao cansaço com o calendário, ajudou a empurrar o ídolo para funções de bastidor, longe da beira do gramado.
Inter revive feridas de 2020: vice, polêmicas de arbitragem e saída na troca para 2021
O retorno de Abel Braga ao Inter reabre uma ferida que o torcedor ainda não cicatrizou: o vice-campeonato brasileiro de 2020, perdido por apenas um ponto para o Flamengo. Naquele ano, o time embalou uma sequência histórica de vitórias e chegou à última rodada dependendo apenas de si contra o Corinthians no Beira-Rio. A frustração pela taça que escapou dentro de casa marcou o elenco, a torcida e o próprio treinador, que até hoje revisita aqueles jogos decisivos.
Desde então, Abel nunca escondeu o incômodo com a forma como o título foi decidido, sobretudo pelas polêmicas de arbitragem na reta final. Em entrevistas, o técnico relembra a expulsão de Rodinei contra o Flamengo no Maracanã e os lances anulados diante do Corinthians na rodada derradeira. Para ele, os erros não foram apenas pontuais, mas parte de um contexto que empurrou a taça para o rival carioca.
Anos depois, em conversa com a Rádio Central, de Campinas, Abel foi ainda mais direto ao falar da sensação de injustiça. O treinador descreveu a combinação de decisões do apito como determinante para o desfecho daquele campeonato, reforçando que o Inter foi prejudicado nos dois jogos finais e que o desequilíbrio sempre aparecia para o mesmo lado.
“Teve sacanagem nos dois últimos jogos do campeonato, sempre só para um lado”, criticou Abel Braga, em entrevista à Rádio Central, em 2021.
A partir de 2025, já distante do Beira-Rio, Abel voltou ao tema em participações em programas e podcasts, mantendo o mesmo discurso. Em aparição recente, ele retomou os lances-chave contra Flamengo e Corinthians, agora com ainda mais liberdade para apontar a arbitragem como protagonista negativa daquela reta final. A narrativa do treinador é de que o Inter tinha time e desempenho para ser campeão, mas esbarrou em decisões externas ao campo.
Em entrevista ao Charla Podcast, o técnico resumiu em poucas frases o sentimento que carrega desde 2020. Ele citou o pênalti anulado diante do Corinthians e o lance de Rodinei no Maracanã, reforçando a tese de que o Inter perdeu a taça por causas que fugiram ao controle do próprio time, mesmo competindo ponto a ponto até o fim.
“2020 foi tirado no apito, cara. Teve o jogo do Rodinei e o contra o Corinthians”, desabafou Abel Braga, no Charla Podcast, em 2025.
Mágoas com Alessandro Barcellos?
Se em relação à arbitragem a mágoa é evidente, o técnico adota tom mais cuidadoso quando fala da transição para 2021, já sob comando de Alessandro Barcellos. Abel admite que esperava uma comunicação mais clara sobre os planos da nova gestão, especialmente pelo fato de existir um acerto encaminhado com Miguel Ángel Ramírez enquanto ele ainda brigava pelo título. Mesmo assim, faz questão de destacar que compreende o direito da direção de escolher outro nome para iniciar o ciclo seguinte.
Em entrevistas após deixar o clube, Abel revelou que gostaria apenas de ter sido avisado antes sobre o novo projeto, para não descobrir pela imprensa ou por terceiros que havia outro treinador na fila. Ainda assim, reforçou mais de uma vez que não transformou essa situação em ruptura pessoal com o presidente ou com a cúpula colorada, insistindo na ideia de respeito mútuo, apesar do ruído na saída.
“Mas não teve mágoa, não teve nada disso. Teve respeito por eles e eles por mim”, garantiu Abel Braga, em entrevista ao ge, em 2021.
A volta por amor ao Inter e o que pode acontecer em 2026
A volta de Abel ao Beira-Rio quebra a própria decisão tomada em 2022, quando o treinador anunciou aposentadoria da beira do campo e declarou que, dali em diante, só desejava trabalhar como coordenador técnico em clubes de futebol. Depois dessa entrevista, ele ainda exerceu justamente essa função no Vasco, em 2023, antes de se afastar novamente do dia a dia de treinos e jogos.
Agora, o Colorado convenceu o ídolo a adiar mais uma vez a aposentadoria. De acordo com matérias de veículos colorados, Abel aceitou o convite muito mais pelo vínculo afetivo com o clube do que por um projeto de longo prazo, reforçando a leitura de que volta “por amor ao Inter” para tentar evitar o rebaixamento nas duas rodadas finais. A missão é curta, intensa e, ao mesmo tempo, carregada de simbolismo para um treinador que já escreveu capítulos decisivos da história colorada.
Nos bastidores, a ideia não se encerra somente nesses dois jogos. Informações publicadas pelo repórter Jairo Winck e por perfis especializados em mercado de treinadores apontam que essa passagem servirá também como um teste físico e emocional para Abel. A partir do desempenho nessas partidas, o treinador e a direção avaliarão se há condições de seguir à frente da equipe em 2026 ou, em um cenário alternativo, assumir o cargo de coordenador técnico em definitivo na próxima temporada, mantendo a ligação diária com o clube mesmo longe da área técnica.
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